Início Musica Dead Fish vai direto ao ponto cego em álbum de inflamada visão...

Dead Fish vai direto ao ponto cego em álbum de inflamada visão política e virulência punk

2
0

Sem dar nomes aos bois, Dead Fish vai direto ao ponto nas letras diretas do oitavo álbum de estúdio dessa banda capixaba que está em cena há 28 anos. Ponto cego (Deck) é inflamado disco de tom explicitamente político que prega resiliência em letras que, com virulência punk, aludem a acontecimentos recentes da história social e política do Brasil.

Produzido por Rafael Ramos, o álbum é ponto alto na discografia desse grupo de hardcore punk surgido em 1991, Vitória (ES), e atualmente reduzido a um power trio formado por Rodrigo Lima (voz), Marcão Melloni (bateria) e Ric Mastria (guitarra).

A excelente mixagem de Bill Stevenson deu ao som a devida pressão para acentuar a pegada hardcore da banda sem ofuscar o discurso, ponto crucial desse álbum que remete à discografia das bandas punks que grassavam e gritavam pelos solos asfaltados das cidades de Brasília (DF) e São Paulo (SP) no alvorecer da década de 1980, fazendo brotar com força a semente do punk brasileiro.

Os hardcores Atenção (Rodrigo Lima, Marcão Melloni, Ric Mastria e Álvaro Dutra) e Apagão (Rodrigo Lima, Marcão Melloni, Ric Mastria, Álvaro Dutra e Alyand), por exemplo, poderiam figurar em qualquer disco inicial da Plebe Rude ou dos Inocentes.

Há vigor em Ponto cego. Mesmo que as músicas em si passem longe de qualquer aprimoramento melódico ou harmônico (qualidade, diga-se, historicamente dispensável no universo punk), as letras falam por si só. Às vezes com verniz poético, como em Sombras da caverna (Rodrigo Lima, Marcão Melloni, Ric Mastria, Álvaro Dutra e Alyand) e em Janelas (Rodrigo Lima, Marcão Melloni e Ric Mastria), às vezes com discurso cru, curto e grosso.

Sob esse prisma, Sangue nas mãos (Rodrigo Lima, Marcão Melloni, Ric Mastria e Álvaro Dutra) e Não termina assim (Rodrigo Lima, Marcão Melloni, Ric Mastria e Álvaro Dutra) dão o recado que move e reforça Ponto cego em todas as músicas.

Sim, o Dead Fish toma partido neste álbum conceitual. E o conceito é tão bem amarrado que o título do álbum, Ponto cego, é ouvido nas letras de todas as 15 músicas do disco sem nominar sequer uma composição (aviso aos navegantes: há faixa escondida após a 14ª e supostamente última música do disco).

Tampouco é preciso dar nomes aos bois porque os sujeitos ocultos dos versos de Receita pro fracasso (Rodrigo Lima, Marcão Melloni, Ric Mastria e Álvaro Dutra) – “Congele o investimento em saúde e educação / Reduza a idade de trancá-los na prisão / Desigualdade aumenta, a repressão também / Uma guerra de classes beneficia a quem?” – ficam explícitos para quem, atento e forte, acompanha o noticiário e o repertório deste disco.

Dead Fish — Foto: Marcelo Marafante / Divulgação

Masterizado por Jason Livermore, o álbum Ponto cego joga o Dead Fish no fervente caldeirão político da atualidade com energia que já parecia dissipada na discografia da banda.

Se o rock brasileiro andou errando, o trio capixaba o recoloca no caminho certo da contestação e da rebeldia manifestadas com vigor juvenil em Ponto cego, álbum de inflamada visão política. (Cotação: * * * * 1/2)

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui